30 de set. de 2011

*A MAGIA DE UM AMBIENTE NATURAL: O NASCIMENTO DE EPHREM


       



                                 Relato de parto de Clara Scropetta - Nascimento de Ephrem

Clara, italiana, conta o nascimento de Ephrem nas aguas do oceano.




Como foi que acolhemos nosso primeiro filho na água transparente do oceano
Publicado na edição de verão de 2004 da revista inglesa The mother magazine 

Tentei muitas vezes escrever esta história, com decepção. Faltava alguma coisa, mesmo que aparentemente não tivesse deixado escapar nenhum detalhe. Um dia reli as sábias palavras de Jeanine Parvati Baker, que falavam da expêriencia xamânica e espiritual do nascimento (Rituals for birth, The Mother magazine, Primavera de 2002), folheei o livro de Vicki Noble « Shakti woman » (O despertar da deusa), e compreendi.

Minhas tentativas de conto até então eram a profanação de um momento sagrado. Era necessário que eu falasse sobre a história de modo diferente, tocando a essência da experiência, que nãtem nada, absolutamente nada a que ver com qualquer tipo de medida (tal como tempo, dilatação, contrações) e outros eventos de ordem prática. Tudo isso, de fato, se encontra fora, ao invés de dentro. Queria encontrar palavras diferentes, uma outra língua, uma outra perspectiva para compartilhar o que aconteceu naquele momento especial da minha vida. Queria mergulhar de novo naquele fantástico estado alterado de consciência para ser sincera, acurada e incisiva. Queria esquecer tudo que tinha lido sobre partos, especialmente as imagens que tinha visto. Queria me distanciar da aparência e reconectar-me com a verdadeira essência.

Eis então a história do nascimento de Ephrem, em 20 de outubro de 2000, o início da estação de calor nas ilhas Maurício. Com o aproximar da lua cheia me senti realmente completa; tinha certeza, aqueles seriam os nossos últimos dias “de dentro” – desfrutava da minha plenitude, caminhando todos os dias até a pequena praia que tínhamos escolhido para o parto e preparando o meu ninho: as últimas sementes e mudinhas a serem plantadas no jardim, limpeza da casa, algumas cartas e e-mails. Me sentia linda, não tinha medo, não estava ansiosa, não estava contando os dias. Vivia o momento. Eu e a vida que levava em meu ventre, ambos pulsávamos juntos. Estava tranquila.

Uma manhã muito cedo, à luz da lua que estava começando a minguar, percebi uma gelatina rosa e maravilhosamente perfumada entre as minhas pernas; voltei à cama nos braços acolhedores de meu marido Yann-Vai, com a certeza de que começava a mudar de estado. Se seguiram diversas horas de fruta tropical, de boa música, de amorosas atenções por parte de Yann-Vai, uma última massagem em Ephrem através de meu ventre ao perfume de incensos e óleos, enquanto começávamos a dançar juntos com os primeiros e gentis movimentos de meu corpo. Estava imersa nessas sensações desconhecidas. Como durante toda a gravidez me sentia tranquila e segura, a mensagem de Ephrem continuava a ser clara, tudo era perfeito e estava procedendo como deveria.

O importante era que eu permitisse acontecer, permitisse acontecer, aceitasse..
De um momento a outro senti que havia chegado o momento de partir para a praia, levando tudo o que pensávamos precisar (hoje prepararia a metade, ou ainda menos!) com uma espécie de “calma excitação”. Apenas terminamos de preparar a cama de folhas sob a magnífica árvore, que foi decorada com corais e conchas, e minha dança começou a ter um sabor diferente. Queimavam incensos de rosa e jasmim. Antes tinha conversado com Yann-Vai, tinha comido, pouco antes estava em um estado ainda “normal”, mesmo que num particular estado emocial.

A partir daquele momento estava presente exclusivamente para dar a luz. Estava incrivelmente distante, mas capaz de me dar conta da presença de um cachorro antes mesmo que fosse possível vê-lo ou escutá-lo.
Yann-Vai continuou a preparar a praia, arrumando um grande fogo para aquecer a água que queríamos usar para o primeiro banho de Ephrem. Veio comigo todas as vezes que desejei entrar na água do mar e seguir as ondas, estava atento para que não chegasse ninguém e pediu aos poucos que ali chegaram que partissem. Foi um dia de vento, fresco e nublado, apenas poucas pessoas passaram por ali. Tratava-se de uma praia pouquíssimo frequentada, exceto por alguns pescadores, com quem tínhamos conversado e que respeitaram nosso pedido de intimidade.
Ele realmente me protegeu e cuidou de mim naquele momento.

Estava sintonizando-me com outras realidades e outros ciclos. Meu corpo estava seguindo as sugestões que chegavam de todos os elementos. Lembro claramente como me senti um canal entre o céu e a terra: um potente raio de luz e calor estava me preenchendo, até que me tornei simplesmente uma com o todo.
Senti o solo sob meus pés, a macia areia de corais, a sábia vitalidade da enorme árvore que me oferecia suporte quando sentia necessidade, senti a água do oceano plena de ressonâncias e de mensagens que se misturavam na água desta lagoa, senti o vento.
Água de mar e vento me davam movimento, o solo e a árvore estabilidade, o céu e a terra abertura e raíz.

Nesse profundo gozo da dança da vida, tive confiança no meu corpo que estava procurando o que necessitava: mudança de posição, água do mar ou raíz da árvore, uma gota de ylang-ylang ou algumas de floral rescue. Movia-me e me comportava como imersa em um sonho, seguindo o instinto primordial.
Tantos e tantos círculos do infinito desenhados com minha cintura. Estava me trasformando e redescobri minha voz, aquela animal. Era a voz de um tigre.
Estava em outro espaço, perto das estrelas e dos espíritos.
Lembro bem a minha surpresa ao pôr do sol, tinha perdido toda a referência com o correr do tempo, me pareceu uma tarde tão curta!

UM SOPRAR DE VENTO, O BATER DAS ASAS DE BORBOLETA!
Subitamente, me levantei e disse a Yann-Vai: “Devo entrar na água” – percorrendo os poucos metros que me separavam da beira do mar, toquei e senti com a mão a cabeça de Ephrem que estava surgindo.
Ao cintilar da lua, no silêncio do crepúsculo, o vento parou por um segundo. Como uma rainha escorreguei no mar, de joelhos acolhi Ephrem, que leve como um anjo veio me encontrar. Imprimiu-se no profundo de minha alma seus fantásticos olhos abertos a me procurar, e seu rosto pleno de sabedoria.
Foi a eternidade.
Como uma rainha me levantei e tornei a nossa cama de folhas tendo Ephrem perto de meu coração, ainda ligado a mim pelo cordão umbilical.

Esta é a história da vinda à luz de Ephrem e é também a história de Clara, ainda uma jovenzinha apesar dos seus 34 anos, que após nove intensos e belos meses de preparação, através da abertura de si mesma fez a experiência da conexão através do céu e da terra, aceitou o mistério e a perfeição da vida, compreendeu sua posição no universo, finalmente recebeu sua iniciação como mulher. E tornou-se mãe.

Honramos o silêncio e o mistério, agradecemos o milagre da vida.

Para dizer a verdade houve também outros momentos. A nossa base teórica era o livro de Leboyer  “Si l’enfantemente m’etait contè” (Diário de um nascimento); não conhecíamos Michel Odent ou a arte da obstertrícia espiritual. Não sabíamos que existia um nome para aquilo que fazíamos:unattended childbirth, parto não assistido. Não conhecíamos ninguém que o tivesse feito. Em um certo sentido éramos pioneiros e o conhecimento no qual nos basavamos era ainda cheio de medos e levemente medicalizado. Foi depois que me liberei de muitas amenidades obstétricas comumente aceitas, mas inúteis.

De tanto em tanto tive medo, por exemplo pedi a Yann-Vai que me inspecionasse por via vaginal porque eu queria “saber” se estava procedendo. Ele não era preparado para reconhecer o grau de dilatação, mas  foi inteligente o suficiente para me dar confiança dizendo “está dilatado, está ainda mais dilatado e portanto com certeza aquilo que toco è uma cabeça”. De tanto em tanto me perguntei se seria capaz de continuar a respirar, ou se poderia tolerar ainda por mais tempo aquela estranha sensação no ânus, ou quanto faltava até a fase de transição.
Tratava-se da minha mente, de uma incapacidade de deixar-me levar incondicionalmente.. Ou talvez a liberação necessária de alguns dos meus medos.

Em um certo momento Yann-Vai me perguntou qualquer coisa e eu o olhei estranhamente. Fiquei um pouco em silêncio para dizer-lhe que não estava ali para conversar. Essa sua pergunta me incomodou muito. Ele então não me voltou a palavra antes do momento do parto.
O lugar que tínhamos escolhido era fantástico, embora hoje teria escolhido um canto mais acolhido, mais íntimo, mesmo somente a árvore ali próxima teria sido bom. Preferimos aquela mais majestosa por sua beleza, mas não demos importância ao fato de que estava no centro. Aberto a leste, oeste e para a beira do mar, me oferecia uma modesta sensação de proteção.

Ephrem não procurou o seio naquela noite (a primeira vez foi após uma longa noite de sono), cortamos o cordão (depois que parou de pulsar, mas sempre muito cedo, com nossos sucessivos filhos deixamos o cordão intacto), Yann-Vai ofereceu a Ephrem o primeiro banho na água de mar morna (sem tirar o casex), eu esperei a saída da placenta, mas no fim foi Yann-Vai a tirá-la. Essa história da placenta devo ainda estudar bem, na procura do que me impediu de aceitar e de atuar na separação da “inner mother”, a mãe interna.
Tornamos à casa e econtramos na caixa postal uma carta de Israel com o significado do nome Ephrem: ENTRE MAR E TERRA… FERTILIDADE!

Agradeço ao poder da natureza e à energia da vida que me apoiaram e me ofereceram uma experiência tao mágica. Que sejam abençoadas.

Posfácio

Desde o início da gravidez recebi e aceitei a mensagem de que tudo andava bem e a partir da quarta lua soube que seria possível realizar o parto sem assistência. Eu e meu parceiro Yann-Vai decidimos andar às ilhas Mauricio antes dessa consciência, mas com a intenção de aproveitar o mar morno e transparente. Pensava em um parto na água nao só pela incrível atração por esse elemento. A vida é uma maravilhosa fonte de sugestões, e assim foi que anos antes tive o privilégio de visitar Flores, a ilha mais ocidental dos Açores. Naquele paraíso encontrei um casal ítalo-frances que tinha apenas tido seu filho em casa; naquele tempo eu absolutamente não me interessava por esse argumento. Nao conversei nada de especial com aquela mulher sobre sua experiência, mas foi a primeira vez que ouvi falar de um parto fora do contexto hospitalar, e nunca mais me esqueci. Naquele período era mais interessada em romances, filmes, “cultura”, assim me emprestaram diversos livros, entre os quais um de uma autora portuguesa que contava a odisséia das mulheres açoreanas obrigadas a parir sem assistência, de como muitas delas foram condenadas à morte após inúteis sofrimentos, etc. Não posso explicar de modo lógico, mas desde então conservei uma espécie de “semente” dentro de mim, como uma marca subliminar: claramente alguma coisa não batia, e terei que investigar mais a fundo. Não muito tempo depois disso visitei Berlim para uma mostra intitulada “Meergeboren”, nascido no mar; nao dei muita importância por tudo aquilo que estava na exposição sobre o tema do nascimento (a mostra era genericamente sobre nossa relação com o mar. Posteriormente, depois da chegada de Ephrem, me dei conta que tinha algma coisa sobre Crhis Grisgom que paria no oceano). Conservo ainda a vívida lembrança de mim mesma deitada em um colchão d’água enquanto ouvia o canto das baleias e sentia profundamente como era correto aceitar que a origem da vida seja no oceano. Foi como nutrir aquela semente que já guardava em mim: uma louca mistura dessas ilhas maravilhosas cheias de cachoeiras, lagos vulcânicos, ondas vigorosas do oceano aberto com a idéia de parto em casa que foram para mim uma espécie de chamado, e a compreensão da origem da vida.
Certo, em Flores se tratava de um parto em casa, mas um lugar assim rico de águas doces e salgadas me inspirou – a mostra não se tratava especificamente de nascimento, embora ambas as experiências tenham sido para mim uma espécie de chamado – desde então nao duvidei nunca do fato de que procuraria aquele tipo de situação para meu próprio parto.
A força das coisas e dos anjos me trouxeram Yann-Vai como amante e pai, um jovem homem de 24 anos que conhecia a obra de Leboyer e também a história de waterbabies russi – que coincidência! 
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Clara Scropetta é italiana, mãe e guardiã do nascimento. Depois de formar-se em Química e Tecnologia Farmacêutica, estudou várias disciplinas complementares para chegar à uma visão da saúde como o equilíbrio dinâmico de relações que se manifesta como beleza e felicidade. Clara crê que a cura do processo do nascimento seja um ponto chave para recuperar o bem estar pessoal e social. “Foi a própria maternidade que me iniciou nesta visão, e são meus três filhos os preciosos aliados nesta busca. Estou-me reeducando com fervor a um estilo de vida respeitoso, sóbrio e consciente (ecológico profundo) e na recuperação das competências maternas. Em meus escritos ofereço a minha opinião pessoal sobre temáticas do período primal (do concebimento à primeira infância) esperando inspirar à reflexão e à experimentação pessoal”. Clara tem três filhos, todos nascidos em casa de forma instintiva, sem acompanhamento.

Tradução de Letícia Koehler
Revisado pelo Grupo de textos da Parto do Princípio - fonte original deste relato, vale conferir os outros tantos no mesmo site...Aproveite e deguste o site todo...tem muita coisa boa por lá...)O(

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