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2 de jul. de 2012

* Relato do Parto de Caroline - Naomi






Relatos do parto de Sophie e Naomi 


Não poderia escrever o relato de do nascimento de Naomi, sem antes relatar o nascimento de nossa primeira filha Sophie. Que para mim, foi o "start" para ter um parto natural...



A Princesa Sophie 






Sophie veio de forma inesperada, gravidez logo após o casamento, e foi muito bem aceita por todos. Papai e mamãe muito felizes, mas sabiamos que um novo ciclo cheio de altos e baixos se iniciaria.

E estávamos dispostos a embarcar de cabeça nesta jornada e cuidar daquele novo ser que se formava em meu ventre. Gravidez que enjoei muito, dormi muito e inchei muito.


Já sabia que queria o parto "normal" e cheguei a ler sobre, buscar informações, mas não me aprofundei (até dentro de mim) como precisaria para conseguir um parto natural.

Queria parir em casa de parto, na época tínhamos convenio então o plano era: Ao constatar os sinais de TP, iríamos a um hospital em um bairro próximo. Se realmente fosse TP, iríamos para casa de parto. No alto das 41 semanas, fui a uma consulta com a médica que me disse que se a bebê não nascesse até segunda-feira (era uma sexta) teria que marcar cesárea porque "estava passando do tempo".

Confesso que voltei pra casa cofusa com tudo isso, mas sabia que não queria cesárea! Em casa comecei a fazer exercícios, subia e descia escada, fazia agachamentos, caminhava e assim induzi meu TP. As 20:00 do sábado já sentia fortes contrações, então resolvi tomar um banho quente pra ver se engrenava, deu certo! Mais ou menos ás 23:00 resolvi ir ao hospital, pois moro na zona norte até chegar na casa de parto na zona leste demora um pouco. Chegamos, fomos atendidos. e foi constatado o TP.

Mas só um dedo e meio de dilatação, as contrações eram fortes e vinham de 5 em 5 minutos, a médica queria me internarem quando disse que queria ir para casa de parto, ela disse que era muio arriscado e que eu não poderia sair de lá.

Ficamos apreensivos com isso, e eu como já sentia muiras dores e não havia me preparado para lidar com elas, foi decidido que ficaríamos ali mesmo.

E eu faria de tudo para que fosse o mais natural possível. Lá eu podia caminhar no quarto e tomar banho quente também, porem haviam os exames de cardiotocografia, de toque, aquelas ligadas básicas de luz na cara... E quando viam eu em pé ou fazendo exercícios as enfermeiras se coçavam pra me colocar no cardio. Tipo, enquanto ta deitadinha ta bom... ¬¬

Meu marido podia entrar e ficar um tempo, assim como minha mãe e minha sogra. Mas não podiam permanecer, pois havia outra parturiente no quarto. Assim que podia eu ia pro banho, fazia exercícios, cheguei até me trancar no banheiro pra fugir de ficar deitada naquele cardio. Dei entrada +/- ás 23:30, já eram 07:00 e eu com 5 centímetros, ai tomei um longo banho e pulei pra 7, quando cheguei nos 8cm estacionei. Estava com fome, cansada, sozinha e com muita dor. Foi ai que a plantonista receitou ocitocina (Detalhe: se eu não perguntasse o que iriam fazer, fariam o que quisesse sem nem me comunicar).

Impressionante é a frieza dentro de um hospital! Aceitei ocitocina, já estava muito cansada, mas ai foi pior ainda. A dor aumentou umas 10x, lembro de falar pra minha mãe que se fosse doer daquele jeito por mais tempo, que fizessem cesárea. Mas já estava na fase de transição, e quando soube que estava de 9cm relaxei, fiquei feliz e evolui pra 10 rapidinho. 10cm= Centro cirurgico Foi ai que o show de horrores começou, chegando lá pedi pra ficar de cócoras, não me deixaram.

Então fiquei deitada, estavam na sala 2 enfermeiros, a plantonista, e um médico. Que entrou, nem se apresentou, e sentou bem de frente para " fazer o parto". Foi ai que meu marido entrou, me senti mais feliz, porem estava com frio, fome, cansada e com medo do que estaria por vir.

A médica que estava em pé me dizia: " Vai faz força agora na próxima contração". E eu dizia a ela, que não sentia os puxos, sentia a bebê alta. Ela olhava pra mim, fazia cara de alface, sorria e na seguinte contração me dizia: "Vai faz força agora". Eu cedi, fiz força por 3 contrações. Resultado: A bebê não desceu.

O médico, sem nem me perguntar se podia, fez uma episio enorme e tirou minha filha de fórceps. A colocaram em cima de mim por alguns segundos e deram para o pai segurar, tudo muito rápido. Depois a pegaram e levaram pra medir, pesar, aspirar, pingar colírio, dar injeção...

E eu lá de longe, apenas observando tudo aquilo que era feito ao meu bebê enquanto levava os pontos da episiotomia. Como se não bastasse os 11 pontos de episio, me deixaram 40 minutos em "observação" longe da minha filha.

Um absurdo, mas eu só conseguia pensar no meu bebê. Quando desci pro quarto, que a trouxeram, estava com uma marca enorme do fórceps. Que ia da cabeça até as maçãs do rosto e comendo os dedinhos de fome. Mamou bastante e depois disso não saiu mais de perto da mamãe. Sophie nasceu dia 10/10/10 a 13:17hrs, medindo 49,5cm e com 3355kg.

Depois de ter um parto roubado, sentia um vazio por dentro, como se algo estivesse para acontecer e fosse barrado. E esse foi o meu "start", pois sabia que só um próximo parto poderia preencher esse vazio, mas um parto natural claro. Sophie princesa muito amada veio para legrar nossas vidas, um amor sem fim.




Naomi o renascimento 





Agosto de 2011, Sophie com 10 meses e meu fluxo não vinha. Fiz um beta com 10 dias de atraso, o mesmo deu negativo. Um mês de atraso e resolvi fazer um teste, desses de farmácia mesmo e a surpresa... Estava grávida novamente, no começo não queria acreditar, pensava que Sophie era muito pequena. Me perguntava se conseguiria cuidar de dois bebês, como a familia reagiria, o marido que na época não estava trabalhando, minha cabeça fervia. Passando o choque inicial, todos jubilamos com a nova vida e dentro de mim eu já sabia que esse parto quem faria seria eu não o médico, mas também sabia que para isso teria que me preparar. Começo de gravidez muito tranquilo, tive poucos enjoos comparados a primeira gravidez, passamos bons momentos e muito aprendizado na casa da Empress Luana no DF. Quando voltamos eu já estava de aproximadamente 19 semanas, foi ai que comecei o pré-natal. Gravidez saudável, de baixo risco, exames ok. Era hora de correr atrás do parto em casa, como era nosso desejo. A príncipio teríamos um PDA (Parto domiciliar assistido), cheguei a fazer contato com algumas obstetrizes, e percebi que se quisesse um PDA, teríamos que desembolsar uma boa quantia em dinheiro. Quantia essa que não tínhamos. Ainda mais com um bebê e agora chegando outro, as despesas iriam aumentar. Então o plano seria casa de parto, mas meu coração era relutante quanto a isso. Queria parir em casa e sabia que era capaz, que meu corpo era capaz, e ai se iniciou um novo plano em minha vida.


a Doula 


Conheci minha doula pela internet bem antes de engravidar de Naomi, conversamos algumas vezes, conversas muito gostosas e que me ajudavam muito. Ainda não haviamos nos encontrado, mas já sabia que se engravidasse novamente ela seria minha doula. E então a descoberta da nova gravidez Julia acabara de ganhar uma doulanda! Assim que voltei de brasilia, fui a um encontro da roda de gestantes nas qual Julia é uma das organizadoras e assim nos conhecemos pessoalmente. Foi um dia chuvoso, e muito gostoso. Trocamos idéias, as crianças brincaram muito, demos boas risadas e Sophie amou o paseio. Depois disso demoramos para nos vermos novamente, mas estávamos sempre em comunicação, ela foi uma das pessoas que mais me ajudaram a ter um parto digno, sou muito grata a ela. Na medida do possível me passava informações, caminhos e contatos. Quando estava mais ou menos de 28 semanas fomos a sua casa para um almoço, foi um dia em que conversamos muito, as crianças se esbaldaram.Conheci sua família, nossos maridos se gostaram, Dadai( irmã da Julia) me fez uma massagem maravilhosa, comemos uma deliciosa pizza que marido da Julia fez. Travamos, quase que não vamos embora. rsrs Nosso último encontro antes do parto foi no meu chá de bebê, já estava de 34 semanas. Julia fez uma linda pintura de barriga, ficou ainda mais bonito do que eu havia imaginado. Nesse dia ela me emprestou um livro (Parto sem estresse), devorei o livro, e coloquei em prática tudo o quanto pude. Seguimos nos comunicando, não precisávamos ficar uma colada na outra, não precisávamos nos falar todo dia ou semana. Mas sabia que ela estaria comigo, quando eu precisasse. Sentia um bem estar e uma confiança enorme, sentia que a conhecia de outras vidas. Gratidão imensa por Deus a colocar em nossas vidas!


O final da gravidez e o parto 


Depois de cair de cabeça na gravidez e no parto em si, eu ja tinha lido muito, ja tinha visto inúmeros vídeos de parto, já tinha lido inúmeros relatos de parto, eu queria me aprofundar mais. Pois estava decidida a ter um PDD, foi então que comentei isso com a Júlia, e ela disse que estaria comigo independente da minha escolha, e me passou o contato da Ana B. que teve um PDD ela foi muito receptiva e me ajudou bastante. Me passou links, apostílas, li bastante os posts do materna japão e também o Relatos de parto da Rosana Oshiro. Rosana me ajudou muito também, sua história, seus partos, principalmente os 2 desassistidos me deram força em minha decisão. Me sanaram dúvidas e me ajudaram a trabalhar meus medos. Admiração e gratidão tenho por essas mulheres, obrigada! Não desmereço quem opta por hospital, casa de parto, PDA.


Acho que o que vale mesmo é parir aonde, como e com quem nos sentimos bem! E eu me sinto bem e segura em minha casa, bem e segura com meu marido, bem e segura com meu corpo. Sabendo que ele é perfeito e sabe parir, sem medos e receios, simplesmente o natural. Tendo a consciência dos riscos, claro! Pois corremos riscos até ao ir a padaria, e com o parto não seria diferente. Eu tinha a consciência de que poderiam haver complicações, de que se fosse necessário teria que ir pro hospital, de que poderia acontecer o pior com mãe e bebê, sabia de tudo isso. Mas a minha mentalização era de que correria tudo bem, afinal o perfeito é o natural.


E assim mantive minha meditação até o final. Compramos tudo o que era necessário para um PDD, meu marido desde o inicio me apoiou, alias me surpreendi com a fé que ele tem nas mulheres, na sabedoria do nosso corpo em parir. Lembro que em uma de nossas conversas eu disse que no TP ele teria que ser forte, não se desesperar, nem me deixar desistir. e ele me disse que de toda a família ele seria o último a se desesperar, e que acreditava que a mulher poderia fazer tudo sozinha, era só deixar ela quietinha que tudo daria certo.


Essa resposta me aliviou e naquela hora senti que ele também estava preparado para o PDD.


Decidimos que só contariamos a nossa decisão para minha mãe, que mora conosco. Ela no começo ficou meio insegura, mas via o quanto eu estava me preparando para aquilo e acreditou em mim. Respeitou nossa decisão e me deu a segurança de que não iria se desesperar e atrapalhar todo o processo. Eu colocava o marido para ler relatos, ver vídeos principalmente os de PDD, e fazia ele compreender que no parto em casa o papel do pai é atuante. E assim até toque ele aprendeu a fazer, foi super engajado por nossa causa.


Gratidão pelo companheiro que és, pois teu apoio foi fundamental para o nascimento digno de nossa filha. Continuei fazendo o pré-natal normalmente, e as 37 semanas umas boa noticia! Strepto negativo, o que me deixou muito feliz, com a bebê cefálica desde o quinto mês, tudo corria bem e meu sonho por um parto respeitoso estava cada vez mais perto. Quanto mais se aproximava o parto, mais Sophie ficava agarrada a mim. Impressionante como isso acabou assim que Naomi nasceu.


A doula-irmã sempe me ligava, me mandava mensagem, estava sempre me mostrando que estava ali pra mim, que estava ali por nós, e eu sentia muito amor. Continuei fazendo meus exercícios, treinando as tecnicas de respirações, subia e descia escada, caminhava... E com 38 semanas comecei a tomar chá de cravo com canela e o colo do meu útero começou a afinar. Nesta gravidez senti, escutei e preparei muito mais o meu corpo.


40 semanas, já sentia muito cansaço, quase não dormia, mas não deixei de me movimentar. Sentia minha princesa cada vez mais perto... Última consulta com a GO, tudo tranquilo, pressão normal como sempre, movimentos fetais presentes, nesta gestação engordei só 9 kg. Tudo correndo bem e nós só esperando Naomi decidir nascer. 08/06/2012, sexta-feira, por volta de 12:00hrs senti uma forte contração, mas não dei muita importancia pois ja havia tido fortes pródromos durante uns 5 dias. Na nossa cultura, guardamos o sábado, preparando casa, comida e roupas antes das 18:00 de sexta, pois das 18:00 de sexta ás 18:00 do sábado descansamos.

E era o que eu estava a fazer, como estava na maior faxina, nem senti mais contrações ou desencanei delas. Quando parei, por volta das 15:00hrs, comi e fui pra bola. Daí senti algumas contrações mas não eram ritmadas então pensei que não era o TP. Por volta de 17:00hrs tomei um banho quente e voltei para a bola. E ali fiquei até umas 19:00hrs, quando senti contrações beem fortes e ai pensei que poderia ser o TP. Então resolvi deitar um pouco para descansar. Deitei, mas quem disse que dormia? Aquela posição acabou ficando insuportável. Por volta de 20:00hrs liguei pra Julia e disse: "Olha eu acho que é hoje!" E ela já havia sentido, estava indo pra casa de sua mãe e me disse que deixaria seus pimpolhos lá e viria pra cá. Julia chegou aqui umas 21:30 e eu já tinha fortes contrações que vinham +/- de 10 em 10min com 1min de duração. E foi que começamos a "preparar' mesmo a casa. Apagar as luzes, acender as velas, colocar Nyahbingui pra tocar...

Foi ai que o TP engrenou de verdade, me entreguei,, Julia me fazia massagens e que santas mãozinhas, nossa como me aliviava! Enquanto isso o marido preparava a casa, inflava a piscina, e eu a cada contração mentalizava meu corpo se abrindo, minha bebê descendo e praticava as técnicas de respiração (técnicas que foram fundamentais para um TP tranquilo). Sophie ficou com sono, chorava e queria meu colo, então minha mãe a levou para casa da minha avó para faze-la dormir.

O que pra mim foi bom, pois a preocupação com ela ativava muito meu racional. E assim seguimos com massagens, luz de velas e Nyahbingui. Enquanto isso a banheira já estava sendo cheia, lembro da Julia me perguntar se eu queria pedir pro marido fazer o toque, pra ver como estava. E eu disse pra ela que não queria toque, meio marruda até. rs Disse a ela que sabia que estava correndo tudo bem! E a essa altura meu corpo ja pedia água quente, e como a piscina ainda não estava cheia, decidi ir pro chuveiro. E assim fomos eu e a bola pro chuveiro. Era uma noite fria e chuvosa e ao tirar a roupa senti frio, então Julia me cobriu com toalhas, foi ótimo! Esquentei, relaxei, e as contrações já me levavam a outras dimensões. Julia então trocou de lugar com o marido e foi cuidar de encher a piscina.






Ele não me dizia nada, mas o seu olhar dizia tudo, me trazia paz, segurança e muito amor. Lembro de olhar pra ele e sorrir, acho que uma forma de agradecer por ser tão companheiro, por compartilhar aquele momento comigo, por me apoiar em todos os momentos. Estava concentrada, mergulhada dentro de mim, sentia Naomi se mexer e sabia que estava tudo bem. Me sentia cansada, e não queria comer, só beber água. E entre uma contração e outra, um puxo! E o chuveiro que antes era tão bom, já não era mais. Perguntei pra Julia se ainda demoraria muito pra encher a piscina, e ela disse que demoraria mais um pouco. Mas que eu poderia entrar e que eles jogariam água nas minhas costas. Este foi um momento engraçado, pois levantei e sai do banheiro que nem um foguete. Nem lembro direito como cheguei na sala, de tão rápido que foi. rsrs


Entrei na piscina, ai relaxei total, água quente aliviava DEMAIS. E a única posição que eu conseguia ficar durante as contrações era tipo rã, com joelhos e cotovelos apoiados no chão. A água que o marido e a doula jogavam nas costas era uma delicia. Água quente, a santa anestesia! Sentia intensas contrações e me fechava dentro de mim mentalizava meu corpo se abrindo, meu bebê cada vez mais perto. Conversava com ela e a chamava para vir a este mundo. Senti uma mega contração e cheguei a pensar se iria conseguir pois me sentia muito cansada. Mas logo em seguida me tranquilizei e pensei: "Estou em transição, isso é bom!". Julia veio com uma banheira de água, tropeçou e despejou tudo em minha lombar, que delicia! Relaxei e senti Naomi descer, a esta altura eu deitava de lado entre as contrações e até cochilava.




Tudo muito tranquilo! Mas também quando vinha contração... Eu pulava e voltava pra posição de rã. Michel jogava água em minhas costas e eu rebolava e praticava respiração profunda, e em determinado momento não via mais ninguém, não escutava nada além do som da água que caia nas minhas costas, quando caiam na água da piscina. E foi neste momento que tive o meu encontro com Deus, dentro de mim. E pedi para que me fizesse forte como as mulheres ancestrais, e que me guiasse até o fim daquela jornada. Então senti outra contração e uma pressão bem forte no períneo, coloquei a mão e senti meu tampão, logo em seguida senti os cabelinhos. E então "voltei" e disse que ela já estava vindo, Julia e o marido se revezavam e jogavam água em minhas costas. Já estávamos perto de uma manhã, eu me sentia muito bem apesar do cansaço, me sentia confortável, me sentia muito segura do que estava fazendo.


Relaxei tanto que ainda cochilava em pleno expulsivo, foi ai que veio uma longa contração seguida de puxos incontroláveis e eu já emitia sons totalmente primitivos e instintivos. Relaxava os músculos da minha boca, e relaxava por dentro, me sentia mole por dentro. E então outra contração e senti uma ardência muito grande, o tal círculo de fogo. O fogo é quente meeesmoo! rsrsrs Falei que ela havia coroado e o marido jogava água em minhas costas. Todos jubilaram, outra longa contração e novamente os puxos, foi quando relaxei e senti Naomi virar dentro de mim, aparei sua cabeça e depois seu corpinho. Incrível é a sensação do poder da vida entre meus dedos.




Veio direto pro colo da mamãe com circular de cordão no pescoço e no braço que retirei assim que a coloquei em meu colo. Tudo tranquilo, sem neuras. Senti um gozo tão grande, um misto de amor, proteção, felicidade,me senti uma vitoriosa! Neste dia nasceu uma nova família, e como se sentisse a chegada da mana, Sophie acordou assim que Naomi nasceu. E veio ver a irmãzinha. Ela ficou encantada! O papai se desmanchou em lágrimas de felicidade, minha mãe também estava ali em êxtase maravilhada com o poder da vida.


E Julia compartilhava desse momento tão importante em nossas vidas trazendo muito amor... Ela se lembrou de tirar as fotos, de filmar, de cuidar para que eu não saísse muito exposta nos registros. Muitas das fotos nem vi ela tirar, tamanha foi sua descrição. Aquele momento foi indescritível, maravilhoso mesmo e eu fiquei lambendo a cria na piscina. Quando ela nasceu eu não via mais ninguém, só estávamos ali eu e o meu bebê. Mas estava frio, precisavamos vestir a bebê e eu começara a sentir as contrações para expulsar a placenta. Então o Papai cortou o cordão e ficou lambendo um pouco a cria no colo, em seguida Julia foi enxugar e vestir Naomi. Foi ai que metade da placenta saiu, e eu relaxei total deitei na água e a placenta demorou a sair. Julia me deu um pão que comi em duas mordidas. kkk





Foi ai que senti que precisava sair da água pra placenta sair e assim que levantei ela saiu. Então me troquei e fui deitar com meu bebê. Naomi pegou no tete e assim ficamos a noite toda. Fomos dormir lá pras 04:00 acordamos as 07:00, tivemos uma conversa muito gostosa, era pura ocitocina! Julia, minha mãe e o marido deram uma super força e arrumaram tudo. Com uma episio super recente meu maior medo era a laceração e graças a Deus não aconteceu. Fui dormir mais um pouco e quando acordei Julia já tinha ido. Me deixando com um sentimento de gratidão enorme por tudo, só desejava bençãos a essa mulher que tanto me ajudara. Gratidão ao meu amor, meu irmão, meu pai, meu companheiro, meu filho e marido. Pois sem ele eu não teria conseguido, homem forte que me deu muita força! Damos graças pela cumplicidade, Te amo! Naomi nasceu no dia 09/06/2012, medindo 51cm e pesando aproximandamente 3,200kg. Nasceu, chorou, choro de pulmão forte! E momentos após seu nascimento já abria os olhinhos, toda alerta... É um bebê tranquilo, que quase não chora, mama em livre demanda e se acorda 2x por noite é muito. Um bálsamo de amor em nossas vidas!!!





*Sei que muitos acham o PDD um absurdo e eu não estou aqui para julgar ninguém. Só acho incrivel falar de empoderamento e achar PDD um absurdo. Só seria empoderada a mulher que parir com assistência? Que empoderamento é esse que só funciona com um profissional do lado?


Absurdo pra mim não é um PDD ou uma Doula acompanhar este tipo de parto. Absurdo é falar em humanização e na hora de humanizar pra quem não tem ou pouca condição de pagar, não rolar. Só eu conheço umas 5 que não tiveram PDA por não ter grana pra pagar 3,4,5,10mil reais por um parto. Humanização tem que ser para TODAS de dentro pra fora e não do bolso pra dentro! Sei que deve ser cobrado, que é também um trabalho, que existem custos, mas me pergunto se REALMENTE custa tão caro...


Acho digno o trabalho voluntário e ficaria muito feliz em vê-lo partindo de profissionais que atendem PDA. E antes que crucifiquem a Julia porque acompanhou meu PDD, já me adianto: O papel dela foi estritamente de Doula MESMO, só tocou em mim pra dar carinho e fazer massagem. Não realizou NENHUM procedimento realizado por médico, parteira ou obstetriz. Cumpriu simplesmente o seu papel de doula! E sobre o caso de acontecer algo errado, estávamos bem concientes. E, dispostos (se preciso fosse) a assinar um termo de responsabilidade em relação ao parto, enfatizando que ela é doula não parteira.


E que quem faria o parto seria eu, então coloca-la de irresponsável ou anti-ética nesse caso não cola! Ela simplesmente não me abandonou, era minha doula antes da escolha do PDD e continuou sendo até o fim... Foi mais que Doula, foi minha companheira! E este é o relato da experiência mais marcante de nossas vidas. Gratidão eterna!





Relato de Parto pelos olhos da Doula- Carol e Naomi 


Carol e eu nos encontramos na internet antes mesmo dela estar grávida de sua 2° filha Naomi. Desde que bati o olho em seu perfil senti uma vontade imensa de conhecê-la...e assim foi.


Após longas conversas (que apesar de serem raras, eram muito produtivas) sobre diversos assuntos, e cada vez mais sobre humanização e resgate do feminino no parto, nos tornamos boas amigas. Porém a aliança mais forte e verdadeira seria celada mais adiante, em seu parto. Assim que soube estar grávida me convidou para acompanhar sua gestação e parto como sua doula.

Aceitei com o coração em jubilo, seria um prazer imenso pra mim. Ela começou então a busca por uma parteira que pudesse acompanhá-la em seu parto, buscava por uma que se enquadrasse nas suas vivências, mandou e-mails e conversou por telefone com uma em questão, mas o valor estava acima do que estavam planejando pagar...realmente fora do possível. Em determinado momento ela se cansou da busca e optou por se preparar junto ao marido para terem um parto a sós.

E assim foi...ela leu artigos, conversou com outras adeptas ao parto desassistido e buscou se munir de muitas informações. Ví que seu preparo surtia efeito...A vi mais forte, segura e amparada do que nunca...Estava plena de sua escolha. Quanto mais via e sentia sua determinação, quanto mais conversava com ela sobre o meu papel junto a eles, sobre os riscos e tudo mais...Mais me sentia segura de estar com eles.

Como não era o 2° parto nessas condições que estaria doulando, me sentia um pouco ansiosa e com receio das represálias que iria sofrer....já sentia isso.

E em todos os momentos Carol me tranquilizou quanto ao que pudesse acontecer e me deu segurança para continuar. Minha consciência é tinhosa, e eu sentia com todas as minhas fibras que deveria estar lá como estive com Ana B., afinal estava com elas mesmo antes de optarem por este parto. Não via como abandoná-las neste momento e nesta hora. Decidi então seguir em frente, sem medo de ser feliz... Muitas pessoas são contra doula assistir desassistido, eu também sou...kkk...contraditório isso não?! Pois bem, vou explicar melhor... 

O risco que corro fazendo isso é grande, imenso...dentre ser presa e correr o risco de ficar 15 anos na cadeia por exercício ilegal da medicina... Para lei não importa se estou alí como amiga, pois tenho o curso de doula e isso caracteriza que eu quis fazer o trabalho de parteira sem ser uma. Estou ciente de que fazendo isso, se algo der errado, eu coloco em risco toda a luta em prol do parto em casa, da humanização e da aceitação das doulas . Mas veja bem, em nenhum momento eu estive divulgando isso, me gabando ou me colocando como parteira. Em nenhum momento eu disse a mulheres que acompanhava partos como parteira...Nunca disse isso.

Se por uma inocência minha acompanhei, foi por que senti que era o mais certo a se fazer por elas e por mim. Se quisesse de alguma forma obter status de parteira tradicional, já teria feito a alguns meses atrás através do parto de Ana, mas não o fiz e não o farei. Esse assunto é tão delicado quanto o assunto que sempre tento abordar de humanização para todas, valores cobrados para se ter parto em casa com parteira e o fato de muitas mulheres não terem condições financeiras para isso. Tão delicado quanto uma gestante ter que se contentar com menos por não ter como pagar o parto em casa. 

Observe...não quero aqui questionar o valor cobrado para se parir em casa hoje...acho justo que seja cobrado, afinal todo o risco que se envolve e todo o estudo da pessoa em questão... é justíssimo que se pague por estes serviços como pagamos outros mais em nossas vidas. Mas acho muito triste ver mulheres deixando um sonho de lado por falta de dinheiro ou de sorte em achar quem acompanhe um parto cobrando um valor mais baixo e facilitando ao máximo...Mesmo assim tem quem não consiga pagar.

Bom, deixando claro aqui que NÃO sou parteira e nem pretendo exercer a função sem que tenha graduação para tal...Que sei sim o risco que mulheres correm optando por terem partos sem assistência de um profissional treinado para situações adversas e que não incentivo nem estimulo que o façam...E que mesmo muitas dizendo, não estou querendo com minhas escolhas e decisões acabar com a luta da humanização ou do parto em casa... Prosseguirei com o relato...Voltando a Carol e o parto. Nos encontramos duas vezes antes do parto, uma na roda de apoio a gestante "Do ventre a Luz" e outra em minha casa, numa tarde muito agradável de pizzas vegs e crianças brincando.

Apesar de nos encontrarmos pouco pessoalmente, nossa ligação foi natural e nossa amizade e confiança crescia instintivamente...Tudo fluiu naturalmente. Eis que na noite anterior ao parto eu sonhei com ela... O telefone tocava e eu não conseguia acordar, tentava muito abrir o olho e atender, mas sem sucesso... Então vejo seu rosto surgir na minha frente dizendo: - Preciso que venha agora, ela vai nascer...atende o telefone! Nessa hora dei um pulo da cama e fui ver o celular...kkk... Ela não havia me ligado e como eram 4 horas da manhã resisti a vontade de ligar pra ela. Voltei a dormir e no outro dia resolvi fazer tudo o que estava pendente em minha casa...Fiz faxina e arrumei armários. Me sentia de certa forma em pródromos e com a cabeça volta ou outra na Carol...

Assim que terminei tudo, tomei banho e seguia para a casa de minha mãe com as crianças Carol me liga por volta das 20 hrs com aquele tom de voz de quem está com contrações de parir...kkk Pelo seu tom de voz um tanto sério e introspectivo eu sabia que não poderia demorar muito pra chegar na casa dela. Cheguei na minha mãe, jantei e segui para a casa de Carol. Cheguei em sua casa por volta das 21 e pouco...E encontrei um ambiente um tanto agitado ainda...com luzes, barulho e todos numa espécie de estado alerta...kkk...o que era normal. Mama Carol estava em transe sob a bola, cheguei saudei-a com Bendito amor e um beijos carinhoso em sua testa.

Assim o fiz com sua mãe e sua filhota Sophie que estava especialmente intrigada e espoleta com toda situação...kkk Sua mãe então decidiu levar Sophie para dormir, então começou a se formar o ninho perfeito para Naomi nascer. Foram apagadas as luzes, acesas as velas e o Nyabing deu o toque primitivo e espiritual que faltava. Desde esse momento então tudo foi fluindo com rapidez, tranquilidade e muito amor.

Carol continuava na bola, mas agora recebendo todo meu amor e uma massagem que gosto de usar visualizando a dilatação. Ela foi se entregando ao processo cada vez mais, mantendo a respiração calma e profunda, mas entoando sons guturais serenos e intensos. Cada vez mais sentia que meu papel alí era de resignação, de fazer como gosto de fazer mesmo...observar e servir em silêncio. E Carol me permitiu ficar assim, pois ela queria assim também... Michel estava por alí a todo instante, fazendo o que tinha que ser feito por ele...Arrumando o ninho para sua rainha parir. Não passou muito tempo e Carol pede para enchermos a piscina, enquanto seu rei preparava a piscina ela foi com a bola para o chuveiro enrolada em toalhas para manter o calor naquela noite gelada.

Neste momento senti que o casal precisava de privacidade, então trocamos de função e enquanto eu continuava o processo de esquentar água no fogão e encher a piscina, Michel apoiava e carinhava sua esposa no chuveiro. Este momento foi incrivelmente lindo de se ver, ambos alí parindo juntos...de mãos fortemente dadas e testa colada. Ví alí todo o amor daquela família, daquele casal...

Imperatriz e Imperador juntos em uma só sintonia e vibração. Naquele momento Carol mudou o som para o tão esperado puxo...veio de leve, mas nos serviu como alerta de que era preciso correr com a piscina...E aí começou a correria. Era um tal de joga panela de água quente e fria...kkkkk Mas ela queria ir pra piscina, não dava mais pra esperar, foi então que tive a ideia salvadora, ela foi pra piscina (que estava com água pela metade) envolta nas toalhas e mantivemos ela quente com canecas de água por todo seu corpo, enquanto um mantinha ela quente o outro ia enchendo a piscina. Fomos nos revezando cada vez que um cansava, e em dado momento eu já bem cansada fui jogar uma banheira de água quente (não fervendo), tropecei e joguei um belo jato em sua lombar...preocupada só me desculpava, afinal era nela ou na sala toda...kkk...

Mais tarde ela veio me falar que foi muito bom aquele jato, ela sentiu que com a pressão da água a bebê desceu relativamente bem e aliviou muito a dor na lombar...UFA!!

Acomodada na banheira Carol ia se movendo como uma gata ao parir, ia se encontrando nas posições e mudando com uma rapidez sempre que necessário...Ela estava totalmente entregue a seu corpo, a suas funções e instintos. Sua respiração profunda logo deu lugar a gemidos de puxo entrelaçados a palavras sussurradas a Naomi. Ela chamava sua filha com todo amor e tranquilidade, nos deixando completamente admirados com sua força e amor. Através de seu chamado Carol trazia lindamente Naomi ao mundo, a cada força ela vinha aos poucos, no seu tempo. Nesse momento ninguem mais saiu de seu lado, era chegada a grande hora daquela noite...

E em uma das forças ouvimos Carol nos dizer que Naomi estava alí, ela podia sentir seus cabelos entre os dedos. Nessa hora fomos a jubilo, rimos de alegria e emoção. Não se passou muitas forças mais e sua cabeça saiu, não podemos ver pois o ambiente estava a meia luz, mas Carol ia nos narrando tudo com uma voz serena que nos iluminava. Enfim ela veio, pelas águas, do ventre de sua mãe e pelas mãos de sua mãe, com algumas circulares no pescoço e no braço, veio forte com choro de pulmão bom, com cor rosada e tranquilidade de quem nasceu na hora certa e de forma digna...como todas as crianças deveriam nascer. Carol a saudou com bendito amor, beijos e cheiros...Como se a muito sentisse saudade de sua pequena. Olhei ao lado e vi Michel chorando lágrimas de lavar a alma. Naomi logo se acalmou entre os seios de sua mãe, com toca na cabeça e fralda envolta em seu corpo...a noite fria dava lugar a um calor intenso de uma luz que brilhava forte.

Passado os primeiros momentos a mãe de Carol entra na sala e se encanta com a nova netinha, e logo após Sophie acorda e ainda sonolenta fala: Nenê!!! Com cara de alegria pura. Após o cordão parar de pulsar, Carol pede a Michel para cortar o cordão...E assim foi tranquilamente. Para manter o calor de Naomi enquanto Carol esperava a saída da placenta, fomos troca-la. O pai tirou a pequena dos braços de sua mãe, namorou ela por um tempo e passou para meus braços para que pudesse vestir e aquecer a pequena. Eu a peguei com delicadeza e a enxuguei sem esfregar, apertei um pouco mais o cordão e a vesti...Tudo isso sem manipular ela mais que o necessário. Passei ela novamente para o pai, e finalmente sua irmã Sophie pode conhecer e carinhar a mais nova integrante da família.

Voltei para a sala onde Carol ainda esperava pela placenta e alí fiquei, lhe dando apoio, e alimento para lhe dar ânimo. Ela estava cansada e muito relaxada e após perceber isso retomou sua posição de parir e novamente ouviu o que seu corpo sabiamente lhe dizia...E por fim após longos minutos a placenta saiu e oficialmente o parto findou. Carol ainda debilitada sai da água com meu amparo, eu a enxugo e ela vai ao encontro da pequena que devora sua mãozinha com o reflexo de sugar poderoso. E sem muitos esforços gruda no peito de sua mãe e mata a fome de quem teve muito o que fazer naquela noite. Fiquei por um momento alí e logo fomos nos recolher para descansar...Dormimos umas 4 horas e levantamos para enfim arrumar a sala, que na noite anterior servira de ninho para que Carol trouxesse ao mundo com respeito e dignidade a Naomi. Enquanto Carol tomava seu café da manhã, sentada na beira de sua cama conversamos...E ainda um tanto encantadas com aquelas horas mágicas trocamos impressões por cima. E novamente elas voltaram a dormir...Enquanto terminávamos de arrumar tudo para que Sophie (que estava quase pulando na piscina) pudesse brincar livremente. E foi assim, da forma mais pura e linda que Naomi veio ao mundo...Da forma que todas as crianças merecem chegar.

Espero que quem ler este relato não o entenda mal, deixe-se tocar pela única coisa que importa...O Amor...Todo Amor...

21 de dez. de 2011

Relato de Parto - Benjamin e Ana





Depois de um alarme falso às 37+2 (madrugada inteira com
contrações fortes e ritmadas, que pararam ao nascer do Sol), minha ansiedade
foi à mil. Já estava cansada, com todos os incômodos do mundo, a Gabriela
exalando energia, Leandro no final do ano letivo, no limite da paciência.
Impossível não comparar uma gestação à outra: Gabriela nasceu de 38 semanas,
esse também não ia demorar. Ledo engano. Passamos as 38, 38+1, 38+2... O mantra
diário era ‘Uma gestação saudável vai até as 42 semanas, uma gestação saudável,
vai até as 42 semanas’.

Na madrugada do dia 07 pro dia 08 (quarta para quinta
feira), umas 4 horas da manhã, acordei com contrações. Doloridas, mas
suportáveis. 10 em 10 minutos, 8 em 8 minutos... como já tinha tido aquela
noite de pródromos, nem me importei. 5 horas da manhã, 6 horas da manhã, 7
horas da manhã... sempre ritmadas, sempre doloridas. Leandro até saiu mais
tarde para trabalhar, vai que engrena, vai que não.

Passei o dia inteiro assim. Desci com a Gabriela para
brincar, fiz comida, dei uma limpada na casa. Queria ao mesmo tempo me
concentrar no processo, no meu corpo... mas isso me deixava ansiosa, nervosa.
Não era a hora ainda de focar, era hora de ficar relaxada... Tirei um cochilo
junto da Gabi depois do almoço, mas a cada contração, eu acordava. Saí de
tarde, para ir ao mercado, à farmácia e, na volta, as contrações apertaram. 5
em 5 minutos, durando uns 20 segundos. Minha sogra apareceu para tomar café com
a gente, me distraí, conversei... foi bom, deu pra esquecer um pouco que eu já
estava há 12 horas com contrações. E assim foi até de noite.  

Acordei à uma da madrugada (de quinta para sexta) com uma
dor forte. Reconheci na hora que aquilo sim era uma boa contração. Não quis
acordar o Leandro, já que queria ter certeza de tudo. Fui pra sala, fiz um
pãozinho, comi. 5 minutos depois, outra contração. Me agachava, rebolava,
respirava... nada como focar o pensamento na respiração, é um alívio tremendo.
Depois de um tempinho assim, resolvi entrar no banho. Tomei uma bela e demorada
chuveirada, no escurinho, aproveitando para relaxar a lombar, que era onde a
contração mais doía. Água quente e respiração praticamente tiravam a minha dor.
Saí do chuveiro e já não queria mais ficar sozinha. Fui acordar o Lê e vi que
eram quase 3 horas da manhã. Daí até às 6 horas da manhã, nada mudou... contrações
sempre de 5 em 5 minutos, durando 20 segundos, 30 segundos... eu andava,
agachava ao máximo, vocalizava, rebolava, o Lê fazia massagem, me sustentava
(lembro de uma hora dar risada comigo mesma, pq ele fazia massagem no meu
pescoço e eu implorando por dentro para ele mudar para a lombar – mas na hora
era simplesmente impossível falar alguma coisa, parecia que existia o Leandro,
eu e um segundo eu, pensante). Ficar dentro de casa estava me sufocando,
resolvi descer para andar no jardim do prédio. A irmã do Leandro tinha vindo
para casa, para ficar com a Gabriela durante a madrugada, caso ela acordasse.
Foi ótimo, porque realmente, parecia que dentro da minha casa já não tinha
espaço suficiente para mim.

Perto das 6:30, comecei a me sentir bem estranha. Enjoada,
hora com frio, hora com calor, pensando que não ia mais agüentar. Opa, peraí! ‘Isso
é sinal da transição’, eu pensava. Mas me parecia impossível! Já estar na
transição, sendo que as contrações estavam ‘fracas’? Cadê as contrações de 2 em
2 minutos, 1 em 1 minuto, longas? Cadê a partolândia? Comecei a ficar
assustada... pensava em parada de progressão, pensava que alguma coisa estava
errada, que era melhor ir para a Casa de Parto e pronto. O Lê ouviu o coração
do bebê, os batimentos estavam ok. Comecei a falar que estava ficando com medo,
que achava que aquilo não era normal, mais de 24 horas e nada ainda? Ele me
dizia que tínhamos que esperar, que eu tinha que ficar calma, que as coisas
estavam indo para frente. Eu estava sim em trabalho de parto, que o bebê ia sim
nascer... Começou a encher a banheira, dizendo que eu deveria entrar para
tentar relaxar, pelo menos, mesmo que o trabalho de parto desse uma
estacionada.

Mas não adiantava eu tentar relaxar. Eu precisava ter
certeza de onde eu estava. Liguei para a Julia, dizendo que estava preocupada,
que achava que não estava engrenando, que já não tinha certeza se tudo estava
bem. Ela sugeriu fazermos um toque, o que foi uma idéia brilhante. Desliguei e
convenci o Leandro a fazer (acho que ele ficou meio traumatizado). Ele fez e
tirou os dedos ‘na medida’ em que estava o colo. Quando eu olhei, até
desanimei. A distância entre os dedos parecia pequena. Bom saber que o meu olhômetro
é péssimo. Pegamos uma régua e tchanãn: 7 centímetros! Sim,
sim, sim. Todas aquelas sensações que pra mim não faziam sentido na teoria,
eram sim a transição. O problema agora era: quanto tempo mais faltaria para
tudo acontecer? O Lê trabalha em escola pública e era dia de conselho de classe
(quando os professores são convocados, não podem faltar, a não ser perante
alguma justificativa. Ele só poderia faltar se o bebê nascesse). Ele disse que
teria que ir trabalhar, para eu ligar pra ele que ele voltava. Liguei de novo
pra Julia e pedi para ela vir ficar comigo, apesar de eu achar que tudo ainda
demoraria muito.

(nessa hora a Gabriela estava acordando e foi pra sala
brincar com a tia. Nem ligou pra mim, nem reparou no que estava acontecendo. Ficou
brincando, tomando leite, como uma manhã normal)

Entrei na banheira preparada para mais algumas boas horas. 5
minutos, 10 minutos, 15 minutos... e começou uma contração como não tinha vindo
até agora. Me senti realmente abrindo por dentro e junto com isso, um ‘ploc’
bem sentido. Quando a contração acabou, levantei e pude sentir toda a água
saindo (coisa que eu quis muito, muito, muito sentir e senti!). O Leandro
estava olhando com olhos bem abertos pra mim e me mostrou no relógio: um pouco
mais de um minuto de contração. Ainda me falou que aquela contração ele
conhecia pelo meu rosto: era a mesma do final do trabalho de parto da Gabriela.
E desistiu de ir trabalhar.

Já não me lembro exatamente das coisas nessa parte. Sei que
as contrações eram compridas e com pouquíssimo intervalo. Depois que a bolsa
estourou, senti mais umas 4 contrações e já senti um leve puxo no final delas. Opa
de novo! Já? Não, não é possível... acho que eu ainda não estou com dilatação
total. Será que eu já estou, em tão pouco tempo? Lembrei da Lia, uma querida
que participa de uma lista de discussão junto comigo, dizendo que informação técnica
demais atrapalha. Lembrei dessa frase e ela fez todo o sentido pra mim na hora.
Ora, se eu estou sentindo o puxo, então eu tenho que seguir o meu corpo, não
importa se faz sentido ou não. Se está acontecendo, está acontecendo. Se
entregar é o único jeito de deixar fluir... 

E assim foi. Eu vocalizava bastante e conseguia sentir ele
descendo pela minha bacia. Acho que a Julia chegou nessa hora. Ainda consegui
falar no intervalo da contração de que estava com medo de fazer força e não ser
a hora. O Leandro dizia que se eu estava sentindo vontade, que era pra fazer. Umas
poucas contrações depois, comecei a sentir a cabeça coroando. Era a melhor
coisa sentir com as minhas mãos o meu filho chegando. A cada contração, eu
aparava o períneo e ia sentindo a cabeça vindo, vindo, vindo... A Julia jogava água
quente nas minhas costas e falava que estava tudo bem, que eu estava ótima. É
impossível descrever a sensação de aparar o seu filho. Senti os cabelinhos dele
e sorri, dizendo como ele era cabeludo. O Lê e a Ju riram comigo. Eu estava
ajoelhada na banheira, com o quadril um pouco abaixado. O Benjamin já estava
com a cabecinha para fora, dentro da água. Não sei quem sugeriu para eu
levantar um pouco, ficar mais ereta. Sei que foi o tempo do Lê me sustentar,
para que ele fizesse a rotação e desprendesse os ombrinhos. Foi mágico. Sentir
o bebê se movendo dentro da gente, num ritmo perfeito para nascer é surreal. Ainda
não tinha visto, estava de olhos fechados, sentindo tudo com as mãos, sentindo
seus movimentos dentro de mim. Quando olhei para baixo, vi sua cabecinha e seu
tronco para fora. Segurei ele pelos bracinhos e ele deslizou inteiro para a água
e depois para o meu colo. Massageei suas costinhas um pouco e ele deu um
chorinho baixo e logo parou. Olhos grandes, abertos e serenos, me olhando
naquele quarto escurinho, com uma energia tão forte que era praticamente palpável.
Que cheiro bom que ele tinha, um cheiro doce naquele cabelinho... e quanto
cabelo! 

Todo mundo parecia em transe: eu, o Leandro, a Julia, a
minha cunhada... só a Gabriela que estava meio aérea e nem se ligou em nada. Não posso
reclamar, era exatamente o que eu queria! Que ela ficasse conosco, passasse o
trabalho de parto dormindo, que pudesse ver o irmão nascer, sem se assustar.

Fiquei um tempão (quer dizer, para mim pareceu um tempão, não
sei ao certo) na banheira, lambendo a cria, rindo que nem boba e conversando. Ainda
sentia contrações, sinal de que a placenta logo, logo sairia. Queria cortar o
cordão somente depois da saída da placenta, mas estava complicado ficar confortável
nas contrações e segurando o bebê no colo. O Lê então cortou o cordão,
embrulhou o Benjamin nas toalhas e ficou namorando o filhote mais novo um
pouquinho. A placenta nasceu uns 20 minutinhos depois, em duas contrações. Membranas
ok, ela por dentro também estava ok. Parto terminado, levantei e fui deitar na
minha cama e amamentar o pequeno, que estava bem alerta e gostou da coisa. O Lê
saiu com a irmã e a Gabriela pra comprarem coisas para a gente comer e eu
fiquei papeando com a Ju.

Queria ter muito filmado o expulsivo, mas não deu. Se não
fosse a Julia, nem fotos nós teríamos! Quando entrei na banheira, entrei em
outro mundo. E o Leandro mergulhou junto comigo nesse transe. Estava tão ou
mais concentrado do que eu, o que foi divino. Sem ele, provavelmente eu não
teria conseguido. Ele me guiou, me deu força, me encorajou e acreditou em mim,
mesmo quando eu não acreditei. E eu não trocaria isso por nada nesse mundo. Sei
que os detalhes ser perderão com o tempo, mas o sentimento de ser abençoada por
passar por essa experiência nunca irá sumir. É algo que carregaremos pro resto
das vidas. 













Minha Visão:

"naquele quarto escurinho, com uma energia tão forte que era praticamente palpável."

Digo que quando entrei em sua casa pairava uma energia muito boa...Uma energia indescritível.
No primeiro passo que dei pedi bênçãos para que minha energia ficasse harmônica com as suas.
E assim entrei no quarto e senti como se estivesse entrando em um santuário, em um círculo mágico.
E agora escrevo arrepiada e com lágrimas nos olhos e novamente e sempre agradecida por poder
vivências esse momento que pra mim foi muito muito especial...Vocês estão de parabéns todos!!!

Você e Leandro são um em quatro seres abençoados...Gratidão a vocês e muitas bençãos sempre!

Me sinto muito abençoada por ter vivenciado este parto maravilhoso...Gratidão Eterna!!!!    )O(

30 de set. de 2011

*A MAGIA DE UM AMBIENTE NATURAL: O NASCIMENTO DE EPHREM


       



                                 Relato de parto de Clara Scropetta - Nascimento de Ephrem

Clara, italiana, conta o nascimento de Ephrem nas aguas do oceano.




Como foi que acolhemos nosso primeiro filho na água transparente do oceano
Publicado na edição de verão de 2004 da revista inglesa The mother magazine 

Tentei muitas vezes escrever esta história, com decepção. Faltava alguma coisa, mesmo que aparentemente não tivesse deixado escapar nenhum detalhe. Um dia reli as sábias palavras de Jeanine Parvati Baker, que falavam da expêriencia xamânica e espiritual do nascimento (Rituals for birth, The Mother magazine, Primavera de 2002), folheei o livro de Vicki Noble « Shakti woman » (O despertar da deusa), e compreendi.

Minhas tentativas de conto até então eram a profanação de um momento sagrado. Era necessário que eu falasse sobre a história de modo diferente, tocando a essência da experiência, que não tem nada, absolutamente nada a que ver com qualquer tipo de medida (tal como tempo, dilatação, contrações) e outros eventos de ordem prática. Tudo isso, de fato, se encontra fora, ao invés de dentro. Queria encontrar palavras diferentes, uma outra língua, uma outra perspectiva para compartilhar o que aconteceu naquele momento especial da minha vida. Queria mergulhar de novo naquele fantástico estado alterado de consciência para ser sincera, acurada e incisiva. Queria esquecer tudo que tinha lido sobre partos, especialmente as imagens que tinha visto. Queria me distanciar da aparência e reconectar-me com a verdadeira essência.

Eis então a história do nascimento de Ephrem, em 20 de outubro de 2000, o início da estação de calor nas ilhas Maurício. Com o aproximar da lua cheia me senti realmente completa; tinha certeza, aqueles seriam os nossos últimos dias “de dentro” – desfrutava da minha plenitude, caminhando todos os dias até a pequena praia que tínhamos escolhido para o parto e preparando o meu ninho: as últimas sementes e mudinhas a serem plantadas no jardim, limpeza da casa, algumas cartas e e-mails. Me sentia linda, não tinha medo, não estava ansiosa, não estava contando os dias. Vivia o momento. Eu e a vida que levava em meu ventre, ambos pulsávamos juntos. Estava tranquila.

Uma manhã muito cedo, à luz da lua que estava começando a minguar, percebi uma gelatina rosa e maravilhosamente perfumada entre as minhas pernas; voltei à cama nos braços acolhedores de meu marido Yann-Vai, com a certeza de que começava a mudar de estado. Se seguiram diversas horas de fruta tropical, de boa música, de amorosas atenções por parte de Yann-Vai, uma última massagem em Ephrem através de meu ventre ao perfume de incensos e óleos, enquanto começávamos a dançar juntos com os primeiros e gentis movimentos de meu corpo. Estava imersa nessas sensações desconhecidas. Como durante toda a gravidez me sentia tranquila e segura, a mensagem de Ephrem continuava a ser clara, tudo era perfeito e estava procedendo como deveria.

O importante era que eu permitisse acontecer, permitisse acontecer, aceitasse..
De um momento a outro senti que havia chegado o momento de partir para a praia, levando tudo o que pensávamos precisar (hoje prepararia a metade, ou ainda menos!) com uma espécie de “calma excitação”. Apenas terminamos de preparar a cama de folhas sob a magnífica árvore, que foi decorada com corais e conchas, e minha dança começou a ter um sabor diferente. Queimavam incensos de rosa e jasmim. Antes tinha conversado com Yann-Vai, tinha comido, pouco antes estava em um estado ainda “normal”, mesmo que num particular estado emocial.

A partir daquele momento estava presente exclusivamente para dar a luz. Estava incrivelmente distante, mas capaz de me dar conta da presença de um cachorro antes mesmo que fosse possível vê-lo ou escutá-lo.
Yann-Vai continuou a preparar a praia, arrumando um grande fogo para aquecer a água que queríamos usar para o primeiro banho de Ephrem. Veio comigo todas as vezes que desejei entrar na água do mar e seguir as ondas, estava atento para que não chegasse ninguém e pediu aos poucos que ali chegaram que partissem. Foi um dia de vento, fresco e nublado, apenas poucas pessoas passaram por ali. Tratava-se de uma praia pouquíssimo frequentada, exceto por alguns pescadores, com quem tínhamos conversado e que respeitaram nosso pedido de intimidade.
Ele realmente me protegeu e cuidou de mim naquele momento.

Estava sintonizando-me com outras realidades e outros ciclos. Meu corpo estava seguindo as sugestões que chegavam de todos os elementos. Lembro claramente como me senti um canal entre o céu e a terra: um potente raio de luz e calor estava me preenchendo, até que me tornei simplesmente uma com o todo.
Senti o solo sob meus pés, a macia areia de corais, a sábia vitalidade da enorme árvore que me oferecia suporte quando sentia necessidade, senti a água do oceano plena de ressonâncias e de mensagens que se misturavam na água desta lagoa, senti o vento.
Água de mar e vento me davam movimento, o solo e a árvore estabilidade, o céu e a terra abertura e raíz.

Nesse profundo gozo da dança da vida, tive confiança no meu corpo que estava procurando o que necessitava: mudança de posição, água do mar ou raíz da árvore, uma gota de ylang-ylang ou algumas de floral rescue. Movia-me e me comportava como imersa em um sonho, seguindo o instinto primordial.
Tantos e tantos círculos do infinito desenhados com minha cintura. Estava me trasformando e redescobri minha voz, aquela animal. Era a voz de um tigre.
Estava em outro espaço, perto das estrelas e dos espíritos.
Lembro bem a minha surpresa ao pôr do sol, tinha perdido toda a referência com o correr do tempo, me pareceu uma tarde tão curta!

UM SOPRAR DE VENTO, O BATER DAS ASAS DE BORBOLETA!
Subitamente, me levantei e disse a Yann-Vai: “Devo entrar na água” – percorrendo os poucos metros que me separavam da beira do mar, toquei e senti com a mão a cabeça de Ephrem que estava surgindo.
Ao cintilar da lua, no silêncio do crepúsculo, o vento parou por um segundo. Como uma rainha escorreguei no mar, de joelhos acolhi Ephrem, que leve como um anjo veio me encontrar. Imprimiu-se no profundo de minha alma seus fantásticos olhos abertos a me procurar, e seu rosto pleno de sabedoria.
Foi a eternidade.
Como uma rainha me levantei e tornei a nossa cama de folhas tendo Ephrem perto de meu coração, ainda ligado a mim pelo cordão umbilical.

Esta é a história da vinda à luz de Ephrem e é também a história de Clara, ainda uma jovenzinha apesar dos seus 34 anos, que após nove intensos e belos meses de preparação, através da abertura de si mesma fez a experiência da conexão através do céu e da terra, aceitou o mistério e a perfeição da vida, compreendeu sua posição no universo, finalmente recebeu sua iniciação como mulher. E tornou-se mãe.

Honramos o silêncio e o mistério, agradecemos o milagre da vida.

Para dizer a verdade houve também outros momentos. A nossa base teórica era o livro de Leboyer  “Si l’enfantemente m’etait contè” (Diário de um nascimento); não conhecíamos Michel Odent ou a arte da obstertrícia espiritual. Não sabíamos que existia um nome para aquilo que fazíamos:unattended childbirth, parto não assistido. Não conhecíamos ninguém que o tivesse feito. Em um certo sentido éramos pioneiros e o conhecimento no qual nos basavamos era ainda cheio de medos e levemente medicalizado. Foi depois que me liberei de muitas amenidades obstétricas comumente aceitas, mas inúteis.

De tanto em tanto tive medo, por exemplo pedi a Yann-Vai que me inspecionasse por via vaginal porque eu queria “saber” se estava procedendo. Ele não era preparado para reconhecer o grau de dilatação, mas  foi inteligente o suficiente para me dar confiança dizendo “está dilatado, está ainda mais dilatado e portanto com certeza aquilo que toco è uma cabeça”. De tanto em tanto me perguntei se seria capaz de continuar a respirar, ou se poderia tolerar ainda por mais tempo aquela estranha sensação no ânus, ou quanto faltava até a fase de transição.
Tratava-se da minha mente, de uma incapacidade de deixar-me levar incondicionalmente.. Ou talvez a liberação necessária de alguns dos meus medos.

Em um certo momento Yann-Vai me perguntou qualquer coisa e eu o olhei estranhamente. Fiquei um pouco em silêncio para dizer-lhe que não estava ali para conversar. Essa sua pergunta me incomodou muito. Ele então não me voltou a palavra antes do momento do parto.
O lugar que tínhamos escolhido era fantástico, embora hoje teria escolhido um canto mais acolhido, mais íntimo, mesmo somente a árvore ali próxima teria sido bom. Preferimos aquela mais majestosa por sua beleza, mas não demos importância ao fato de que estava no centro. Aberto a leste, oeste e para a beira do mar, me oferecia uma modesta sensação de proteção.

Ephrem não procurou o seio naquela noite (a primeira vez foi após uma longa noite de sono), cortamos o cordão (depois que parou de pulsar, mas sempre muito cedo, com nossos sucessivos filhos deixamos o cordão intacto), Yann-Vai ofereceu a Ephrem o primeiro banho na água de mar morna (sem tirar o casex), eu esperei a saída da placenta, mas no fim foi Yann-Vai a tirá-la. Essa história da placenta devo ainda estudar bem, na procura do que me impediu de aceitar e de atuar na separação da “inner mother”, a mãe interna.
Tornamos à casa e econtramos na caixa postal uma carta de Israel com o significado do nome Ephrem: ENTRE MAR E TERRA… FERTILIDADE!

Agradeço ao poder da natureza e à energia da vida que me apoiaram e me ofereceram uma experiência tao mágica. Que sejam abençoadas.

Posfácio

Desde o início da gravidez recebi e aceitei a mensagem de que tudo andava bem e a partir da quarta lua soube que seria possível realizar o parto sem assistência. Eu e meu parceiro Yann-Vai decidimos andar às ilhas Mauricio antes dessa consciência, mas com a intenção de aproveitar o mar morno e transparente. Pensava em um parto na água nao só pela incrível atração por esse elemento. A vida é uma maravilhosa fonte de sugestões, e assim foi que anos antes tive o privilégio de visitar Flores, a ilha mais ocidental dos Açores. Naquele paraíso encontrei um casal ítalo-frances que tinha apenas tido seu filho em casa; naquele tempo eu absolutamente não me interessava por esse argumento. Nao conversei nada de especial com aquela mulher sobre sua experiência, mas foi a primeira vez que ouvi falar de um parto fora do contexto hospitalar, e nunca mais me esqueci. Naquele período era mais interessada em romances, filmes, “cultura”, assim me emprestaram diversos livros, entre os quais um de uma autora portuguesa que contava a odisséia das mulheres açoreanas obrigadas a parir sem assistência, de como muitas delas foram condenadas à morte após inúteis sofrimentos, etc. Não posso explicar de modo lógico, mas desde então conservei uma espécie de “semente” dentro de mim, como uma marca subliminar: claramente alguma coisa não batia, e terei que investigar mais a fundo. Não muito tempo depois disso visitei Berlim para uma mostra intitulada “Meergeboren”, nascido no mar; nao dei muita importância por tudo aquilo que estava na exposição sobre o tema do nascimento (a mostra era genericamente sobre nossa relação com o mar. Posteriormente, depois da chegada de Ephrem, me dei conta que tinha algma coisa sobre Crhis Grisgom que paria no oceano). Conservo ainda a vívida lembrança de mim mesma deitada em um colchão d’água enquanto ouvia o canto das baleias e sentia profundamente como era correto aceitar que a origem da vida seja no oceano. Foi como nutrir aquela semente que já guardava em mim: uma louca mistura dessas ilhas maravilhosas cheias de cachoeiras, lagos vulcânicos, ondas vigorosas do oceano aberto com a idéia de parto em casa que foram para mim uma espécie de chamado, e a compreensão da origem da vida.
Certo, em Flores se tratava de um parto em casa, mas um lugar assim rico de águas doces e salgadas me inspirou – a mostra não se tratava especificamente de nascimento, embora ambas as experiências tenham sido para mim uma espécie de chamado – desde então nao duvidei nunca do fato de que procuraria aquele tipo de situação para meu próprio parto.
A força das coisas e dos anjos me trouxeram Yann-Vai como amante e pai, um jovem homem de 24 anos que conhecia a obra de Leboyer e também a história de waterbabies russi – que coincidência! 
 …………………………………………
Clara Scropetta é italiana, mãe e guardiã do nascimento. Depois de formar-se em Química e Tecnologia Farmacêutica, estudou várias disciplinas complementares para chegar à uma visão da saúde como o equilíbrio dinâmico de relações que se manifesta como beleza e felicidade. Clara crê que a cura do processo do nascimento seja um ponto chave para recuperar o bem estar pessoal e social. “Foi a própria maternidade que me iniciou nesta visão, e são meus três filhos os preciosos aliados nesta busca. Estou-me reeducando com fervor a um estilo de vida respeitoso, sóbrio e consciente (ecológico profundo) e na recuperação das competências maternas. Em meus escritos ofereço a minha opinião pessoal sobre temáticas do período primal (do concebimento à primeira infância) esperando inspirar à reflexão e à experimentação pessoal”. Clara tem três filhos, todos nascidos em casa de forma instintiva, sem acompanhamento.

Tradução de Letícia Koehler
Revisado pelo Grupo de textos da Parto do Princípio - fonte original deste relato, vale conferir os outros tantos no mesmo site...Aproveite e deguste o site todo...tem muita coisa boa por lá...)O(

๖๔΅˚◦.Minha Arte.◦˚΅๖๔